Como melhorar o atendimento ao utente nas unidades de saúde sem aumentar o secretariado

Onde o atendimento ao utente perde mais tempo

Melhorar atendimento ao utente unidade de saúde não começa, na maioria dos casos, por contratar mais pessoas. Começa por perceber onde o tempo do secretariado clínico está realmente a ser consumido. Em muitas unidades de saúde familiar, UCSP e serviços hospitalares, o problema não é apenas o volume de contactos. É sobretudo a repetição de tarefas simples, feitas uma a uma, por telefone, email ou ao balcão.

O cenário é conhecido: logo de manhã, o telefone toca para confirmar horários, pedir renovação de medicação, saber se já saiu uma credencial, remarcar uma consulta ou perguntar que documentos são necessários. Ao mesmo tempo, há utentes ao balcão, profissionais a pedir apoio administrativo e uma caixa de email com dezenas de mensagens por tratar. O resultado é previsível: filas, chamadas não atendidas, respostas tardias e equipas sob pressão.

Em termos práticos, há quatro pontos onde se perde mais tempo:

  • Atendimento telefónico repetitivo: muitas chamadas são para informação básica que podia estar disponível de forma clara noutro canal.
  • Triagem manual de pedidos: o secretariado recebe tudo da mesma forma e tem de decidir, caso a caso, o que é clínico, administrativo ou urgente.
  • Marcação e remarcação de atos: processos feitos por telefone ou email, sem regras uniformes, geram várias interações para resolver um único pedido.
  • Pedidos incompletos: faltam dados do utente, número de utente, contacto, motivo do pedido ou documentação, obrigando a novos contactos.

Esta realidade não é exclusiva da saúde. Em muitas câmaras municipais acontece o mesmo nos serviços de urbanismo, ação social ou atendimento geral: o problema não está apenas na quantidade de pedidos, mas no facto de tudo entrar pelo mesmo funil. Também em agrupamentos de escolas, os serviços administrativos perdem horas com pedidos simples sobre matrículas, declarações e refeições escolares, porque os canais não estão organizados.

Numa unidade de saúde, o impacto é ainda mais sensível porque o utente associa a demora administrativa à qualidade global do serviço. Se ligar três vezes para saber o horário de colheitas e ninguém atender, ou se tiver de ir presencialmente só para pedir uma informação simples, a perceção de mau atendimento instala-se rapidamente, mesmo quando a resposta clínica é adequada.

Por isso, melhorar atendimento ao utente unidade de saúde exige mapear os contactos mais frequentes e separar o que precisa mesmo de intervenção humana do que pode seguir uma resposta normalizada, segura e mais rápida.

Que pedidos podem ser resolvidos sem intervenção manual

Nem tudo pode, nem deve, ser automatizado. Numa unidade de saúde há sempre situações que exigem avaliação humana, nomeadamente quando existe conteúdo clínico, dúvida sobre prioridade ou necessidade de confirmar identidade de forma reforçada. Mas uma parte significativa dos pedidos do dia a dia pode ser tratada sem ocupar o secretariado clínico em tarefas repetitivas.

Na prática, os pedidos mais adequados para resolução sem intervenção manual são os seguintes:

  • Informação de serviço: horários, localização, contactos, funcionamento do balcão, regras de acesso, documentos necessários.
  • Confirmação e lembretes: aviso de consulta marcada, pedido de confirmação de presença, indicação de preparação para exame.
  • Pedidos administrativos simples: emissão de declarações, informação sobre estado de pedido, encaminhamento correto do requerimento.
  • Remarcações dentro de regras definidas: por exemplo, alteração de consulta não urgente com antecedência mínima.
  • Respostas a perguntas frequentes: vacinação, renovação de receituário em termos gerais, meios disponíveis para contacto.

Um exemplo realista: numa USF, o secretariado recebe dezenas de chamadas por semana apenas para explicar como pedir renovação de medicação crónica. Se existir um canal claro, com formulário simples e resposta automática a explicar o procedimento, o número de telefonemas desce de forma imediata. O mesmo acontece com pedidos para saber se uma consulta foi alterada ou se determinada especialidade atende em certo dia.

Outro exemplo, semelhante ao que já se vê em alguns serviços municipais, é o uso de formulários com campos obrigatórios. Em vez de um email livre, o utente escolhe o tipo de pedido e preenche os dados mínimos necessários. Isto reduz erros e evita trocas sucessivas de mensagens. Numa câmara municipal, este modelo já é usado para pedidos de ocupação da via pública ou reportes urbanos. Numa unidade de saúde, pode aplicar-se a pedidos administrativos sem expor dados clínicos desnecessários.

Aqui entra uma cautela importante: qualquer reorganização tem de respeitar o RGPD. Não faz sentido recolher mais dados do que o necessário, nem usar canais informais para informação sensível. O princípio da minimização de dados deve ser aplicado desde o desenho do processo. Também importa garantir que o utente percebe para que serve cada canal e que tipo de informação pode ou não enviar.

Do ponto de vista da administração pública, esta lógica está alinhada com o esforço de simplificação e atendimento multicanal que a AMA tem promovido em vários serviços. E, no plano organizacional, faz sentido olhar para o enquadramento de modernização administrativa previsto no Decreto-Lei n.º 83/2018, que reforça a necessidade de serviços mais simples, acessíveis e orientados para o cidadão, sem perder controlo nem segurança.

Como reorganizar canais de contacto e resposta

Uma das causas mais frequentes de sobrecarga é ter todos os pedidos a entrar por todos os canais. O utente liga, envia email, aparece ao balcão e, se não obtiver resposta, repete o contacto. O secretariado acaba por tratar o mesmo assunto várias vezes. Para melhorar atendimento ao utente unidade de saúde, é essencial definir canais com regras claras.

Na prática, a reorganização pode seguir quatro passos simples.

  • Separar canais por tipo de pedido: telefone para situações urgentes ou que exigem interação imediata; formulário ou portal para pedidos administrativos; balcão para atendimento presencial indispensável.
  • Publicar instruções objetivas: no site, na entrada da unidade, em cartazes no balcão e em mensagens automáticas. O utente deve perceber rapidamente onde tratar cada assunto.
  • Criar respostas-padrão úteis: não respostas genéricas do tipo “o seu pedido será analisado”, mas mensagens que expliquem prazos, próximos passos e documentação em falta.
  • Definir tempos de resposta realistas: se o prazo médio para um pedido administrativo é de 48 horas úteis, isso deve ser comunicado e cumprido.

Um cenário muito comum: o utente telefona para remarcar uma consulta, não consegue, envia email, e depois vai ao balcão. Se a unidade tiver um canal específico para remarcações não urgentes, com confirmação automática e prazo definido, evita-se esta duplicação. O mesmo princípio já é usado em várias juntas de freguesia para pedidos de atestados ou marcações de atendimento, reduzindo filas presenciais desnecessárias.

Também ajuda muito organizar internamente a resposta. Em vez de cada elemento do secretariado tratar tudo o que chega, pode haver uma distribuição simples: um bloco para atendimento telefónico em determinadas horas, outro para validação de pedidos administrativos, outro para apoio ao balcão. Não é preciso criar uma estrutura complexa. Basta reduzir a sensação de caos permanente.

Outro ponto essencial é a gestão das expectativas. Muitas reclamações surgem não porque o prazo seja excessivo, mas porque o utente não sabe o que esperar. Se receber uma mensagem a confirmar que o pedido foi registado, com indicação do prazo e do canal correto para urgências, a ansiedade baixa e o número de contactos repetidos também.

Convém ainda garantir alternativas para quem tem menos literacia digital. Tal como acontece em câmaras municipais quando se introduzem serviços online, a solução não pode excluir quem prefere o atendimento presencial ou telefónico. O objetivo não é empurrar todos para o digital. É reservar o atendimento humano para o que realmente precisa dele.

Como avaliar se a experiência do utente melhorou

Sem medição, a sensação de melhoria pode ser enganadora. Uma unidade de saúde pode achar que está a responder melhor porque implementou um novo canal, mas se os utentes continuam a repetir contactos ou a deslocar-se ao balcão para resolver assuntos simples, o problema mantém-se.

Os indicadores mais úteis são geralmente os mais simples:

  • Tempo médio de resposta a pedidos administrativos.
  • Número de chamadas perdidas por dia ou por semana.
  • Percentagem de pedidos resolvidos no primeiro contacto.
  • Número de deslocações presenciais para assuntos informativos.
  • Volume de contactos repetidos sobre o mesmo tema.

Se uma unidade conseguir reduzir chamadas sobre horários, documentos necessários ou estado de marcações, isso é um sinal claro de que a informação está mais acessível. Se o balcão deixa de estar ocupado com pedidos simples e passa a responder melhor a situações que exigem presença física, a experiência do utente melhora e a equipa também trabalha com menos interrupções.

Vale a pena recolher feedback curto e objetivo. Não é necessário um inquérito longo. Duas ou três perguntas após o atendimento podem ser suficientes: conseguiu resolver o pedido? percebeu o canal adequado? o tempo de resposta foi aceitável? Em muitos serviços públicos, incluindo escolas e autarquias, este tipo de avaliação simples dá informação mais útil do que relatórios extensos que ninguém consulta.

Também importa ouvir a equipa. Se o secretariado continua a passar o dia a alternar entre telefone, balcão e email sem critério, então a reorganização ainda não chegou ao funcionamento real. Melhorar atendimento ao utente unidade de saúde não é apenas facilitar a vida ao utente; é também criar condições para que o atendimento seja consistente, previsível e menos dependente de esforço individual permanente.

Em conclusão, melhorar o atendimento sem aumentar o secretariado é possível quando se eliminam tarefas repetitivas, separam canais, clarificam regras e medem resultados. Nas unidades de saúde, tal como nas câmaras municipais, juntas de freguesia ou escolas, a melhoria começa quase sempre por organizar melhor o que já existe. Menos chamadas sobre o mesmo assunto, menos idas desnecessárias ao balcão e respostas mais claras traduzem-se numa experiência melhor para o utente e num serviço mais sustentável para a equipa.

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