O que fazer quando os funcionários públicos resistem a usar uma nova plataforma

Razões reais para a resistência nas equipas

Quando se fala em adoção de software na administração pública, o problema raramente está apenas na plataforma. Na prática, a resistência aparece porque a mudança mexe com rotinas muito antigas, com formas de trabalho que já foram “afinadas” ao longo de anos e com equipas que vivem sob pressão diária. Quem atende ao balcão, responde a emails, trata requerimentos e atende telefonemas não vê a nova ferramenta como um projeto estratégico. Vê-a como mais uma tarefa em cima do trabalho que já tem.

Numa câmara municipal, por exemplo, é comum encontrar serviços onde o circuito real ainda passa por papel, assinatura, digitalização, envio por email e registo em Excel. Mesmo quando já existe uma aplicação para gestão de processos, muitos trabalhadores continuam a manter ficheiros paralelos “para garantir”. Não é teimosia gratuita. É, muitas vezes, falta de confiança de que o sistema novo lhes permita responder ao munícipe com a rapidez e a segurança a que estão habituados.

Há também um fator importante: o receio de perder autonomia. Um técnico administrativo que durante anos soube exatamente onde estava cada processo, quem costumava desbloquear um assunto e como resolver um pedido urgente pode sentir que a nova plataforma lhe retira margem de manobra. Se antes bastava telefonar a um colega ou passar no gabinete ao lado, agora pode ter de seguir passos obrigatórios, preencher campos e esperar validações. Se a mudança não for bem explicada, a perceção é simples: “isto atrasa-me”.

Outro ponto muito real é a desigualdade de competências digitais dentro da mesma equipa. Numa junta de freguesia ou num agrupamento de escolas, pode haver trabalhadores muito confortáveis com ferramentas digitais e outros que usam o essencial: email, Word e pouco mais. Quando se lança uma nova plataforma como se todos partissem do mesmo nível, cria-se ansiedade. E a ansiedade, no atendimento público, transforma-se depressa em recusa.

Também pesa a experiência anterior. Muitas entidades públicas já passaram por implementações mal sucedidas: sistemas lentos, fornecedores ausentes, formação insuficiente, duplicação de registos. Quando surge uma nova solução, a reação natural é de desconfiança. “Já vimos isto antes” é uma frase frequente. E, em muitos casos, com razão.

Há ainda um aspeto de cultura organizacional. Se a chefia usa a plataforma, pede informação a partir dela e deixa de aceitar mapas em Excel enviados por email, a adoção cresce. Se a chefia continua a pedir “mande-me isso por email” ou “faça-me um resumo em Excel”, a mensagem para a equipa é clara: o sistema é acessório.

Erros de implementação que afastam os utilizadores

Muitas dificuldades na adoção de software na administração pública começam antes do arranque. Um erro frequente é implementar a ferramenta sem mapear o trabalho real. O procedimento formal pode dizer uma coisa, mas o circuito diário é muitas vezes diferente. Se ninguém observar como o atendimento funciona no balcão, como os pedidos entram por telefone ou email, e como são distribuídos internamente, a plataforma será configurada para um processo idealizado, não para o processo real.

Imagine-se um serviço de urbanismo numa câmara municipal. Formalmente, o pedido entra, é registado, distribuído e analisado. Na prática, há pedidos incompletos, chamadas de esclarecimento, documentos entregues fora de prazo e munícipes que aparecem no balcão a pedir ponto de situação. Se a plataforma não acomodar esta realidade, os técnicos criam atalhos fora do sistema. E quando o trabalho real acontece fora da plataforma, a adoção falha.

Outro erro muito comum é tentar fazer tudo de uma vez. Migrar processos, alterar formulários, rever circuitos, formar equipas e mudar indicadores no mesmo mês costuma gerar bloqueio. Em vez de simplificar, cria-se uma sensação de rutura. Em serviços com pouco pessoal, isto traduz-se em filas maiores, mais chamadas por atender e mais reclamações.

Também afasta os utilizadores a falta de patrocínio visível da direção. Se a implementação fica entregue apenas ao fornecedor ou ao departamento de informática, a equipa vê o projeto como algo externo ao serviço. Numa escola, por exemplo, a adoção de uma nova plataforma administrativa só ganha tração quando a direção, os serviços administrativos e os coordenadores alinham expectativas e práticas. Caso contrário, cada um continua a trabalhar à sua maneira.

A formação genérica é outro erro clássico. Sessões longas, cheias de menus e funcionalidades, sem ligação ao trabalho diário, raramente resultam. O funcionário do atendimento precisa de saber como registar um pedido em menos de dois minutos, como consultar o estado de um processo enquanto fala com o munícipe e como corrigir um erro sem abrir um ticket e esperar dias. Se a formação não responde a estas situações concretas, não gera confiança.

Há ainda falhas relacionadas com conformidade e governação. Em entidades públicas, qualquer nova plataforma tem de ser enquadrada com cuidado em matéria de proteção de dados, perfis de acesso e registo de operações, em linha com o RGPD. E, quando aplicável, deve respeitar princípios de interoperabilidade e simplificação administrativa promovidos pela AMA. Se os utilizadores sentem que não está claro quem pode ver o quê, ou que o sistema pede dados em excesso, a resistência aumenta. O mesmo acontece quando não se articula a solução com regras de gestão documental e desmaterialização previstas no Decreto-Lei n.º 83/2018, sobretudo na forma como documentos e processos são organizados, preservados e consultados.

Como formar sem parar o serviço

O maior receio das chefias intermédias é simples: “se tiro as pessoas do posto para formação, quem atende?”. É uma preocupação legítima. Em serviços públicos com equipas reduzidas, não é realista parar um balcão durante dois dias para formar toda a gente. Por isso, a formação tem de ser desenhada à volta do serviço, e não o contrário.

O modelo que costuma funcionar melhor é o de formação curta, prática e faseada. Em vez de uma sessão única de três horas, é preferível fazer blocos de 45 a 60 minutos, por perfil de utilizador. Uma equipa de atendimento precisa de exercícios diferentes dos de um técnico que analisa processos ou de uma chefia que valida pedidos. Cada sessão deve usar casos reais: registar um pedido de licença, responder a um munícipe que liga a pedir estado de um processo, anexar documentos, reencaminhar internamente e fechar o atendimento.

Numa junta de freguesia, por exemplo, pode fazer-se formação logo no início da manhã, antes da abertura ao público, durante uma semana. Num agrupamento de escolas, pode aproveitar-se o período entre picos administrativos, como depois das matrículas ou fora dos momentos de maior carga de exames e ação social escolar. O importante é ajustar ao calendário real do serviço.

Ajuda muito identificar dois ou três utilizadores de referência em cada área. Não precisam de ser “superutilizadores” no sentido formal. Basta que sejam pessoas respeitadas pela equipa, com vontade de aprender e disponibilidade para apoiar colegas nas primeiras semanas. Em muitos serviços, os trabalhadores aceitam melhor a ajuda de um colega do que de um formador externo.

Outro ponto essencial é criar materiais simples. Não manuais de 80 páginas, mas guiões de uma folha: “como registar um pedido”, “como consultar um processo”, “como corrigir um erro frequente”. Estes apoios devem estar acessíveis no posto de trabalho. Quando o balcão está cheio, ninguém vai procurar uma gravação de 40 minutos para resolver uma dúvida.

Vale também a pena prever um período de arranque assistido. Nos primeiros dias, é útil ter alguém disponível para responder rapidamente a dúvidas, presencialmente ou por telefone interno. Esse apoio reduz o abandono. Se um utilizador bloqueia duas ou três vezes sem resposta, volta ao email, ao papel ou ao Excel.

Por fim, a formação deve incluir regras claras sobre dados pessoais e acessos. No contexto do RGPD, não basta ensinar a usar a plataforma; é preciso mostrar que informação pode ser consultada, por quem e para que efeito. Isto é especialmente importante em áreas sensíveis, como ação social, recursos humanos, educação ou atendimento social.

Como criar adoção com ganhos visíveis no dia a dia

A melhor forma de vencer resistência é mostrar utilidade imediata. A equipa adere quando percebe que a nova plataforma resolve problemas concretos do dia a dia. Não basta dizer que o sistema “moderniza” ou “digitaliza”. É preciso provar que reduz chamadas repetidas, evita procurar papéis, diminui erros e acelera respostas ao munícipe.

Um exemplo simples: se o atendimento ao balcão conseguir ver, num único ecrã, o estado do pedido, os documentos entregues e a última interação com o serviço, isso evita telefonemas internos e idas ao arquivo. Esse ganho é percebido no próprio dia. Numa câmara municipal, isto pode significar menos tempo de espera para o munícipe e menos interrupções para os técnicos.

Outro ganho visível é eliminar duplicação. Se hoje um pedido entra no balcão, é registado em papel, depois em Excel e mais tarde reenviado por email ao serviço competente, a plataforma deve substituir esse circuito, não somar-se a ele. Enquanto coexistirem registos paralelos, os utilizadores vão sentir que trabalham mais do que antes. A regra deve ser clara: uma vez estabilizado o processo, a informação oficial está no sistema.

As chefias podem ajudar muito se acompanharem indicadores simples e úteis. Não é preciso criar um quadro complexo. Basta medir coisas como tempo médio de registo, número de pedidos pendentes sem responsável, pedidos devolvidos por falta de documentos e tempo de resposta ao munícipe. Quando a equipa vê melhoria nestes pontos, a plataforma deixa de ser uma imposição e passa a ser uma ajuda.

Também resulta bem começar por um processo com dor evidente. Por exemplo, pedidos de atestados numa junta de freguesia, gestão de ocorrências numa escola, ou pedidos de licenciamento com elevado volume numa câmara municipal. Se o primeiro caso de uso escolhido for relevante e frequente, os ganhos tornam-se visíveis mais depressa.

É importante, ainda, ouvir a equipa depois do arranque. Pequenos ajustes fazem diferença: reduzir campos obrigatórios, rever listas de opções, simplificar notificações, melhorar pesquisas. Muitas resistências desaparecem quando os utilizadores percebem que o sistema pode ser afinado com base no trabalho real. A adoção não se decreta; constrói-se com correções sucessivas.

Por último, convém alinhar a plataforma com regras documentais e administrativas da entidade. Quando a solução respeita os circuitos de decisão, os perfis de acesso, a classificação documental e os requisitos de arquivo e consulta previstos no DL 83/2018, a equipa sente maior segurança no uso diário. E quando a integração com outros canais é bem pensada — balcão, telefone, email e formulários online — evita-se que o serviço fique fragmentado.

Em conclusão, a resistência dos funcionários públicos a uma nova plataforma não se resolve com imposição nem com formação apressada. Resolve-se quando a implementação respeita o trabalho real, quando a equipa percebe ganhos concretos e quando a chefia dá o exemplo. Na adoção de software na administração pública, o sucesso mede-se menos pela instalação da ferramenta e mais pelo momento em que deixa de ser “a plataforma nova” e passa a fazer parte natural do atendimento e da gestão diária.

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